Kopenawa, o valor de uma voz amplificada


Com a crise climática cada vez mais em pauta, a atenção do mundo está na Amazônia, um órgão vital para manutenção da vida na terra. Por isso, quem vive na floresta tropical tem sua fala amplificada. 

Davi Kopenawa é um líder Yanomami, que tem sua reserva invadida constantemente por pessoas em busca de ouro. Protege sua morada, a maior reserva indígena do país com quase 10 milhões de hectares na floresta Amazônica, em Roraima, fronteira com a Venezuela. Esse território foi demarcado em 1992, depois de anos de luta. 

O líder indígena aprendeu a língua do branco para que todos soubessem o que estava acontecendo na floresta.

De acordo com a matéria da Agência Pública, divulgado em 08 de agosto de 2019, são mais de 15 mil garimpeiros ilegais explorando ouro. Segundo reportagem da BBC Brasil, se tornou, em 2019, o segundo maior produto de exportação de Roraima, sem que o Estado tenha uma única mina operando legalmente. Enraivecido, Kopenawa vê o homem branco revirar sua terra, desmatar sua floresta e envenenar suas águas com o mercúrio usado no garimpo. 

A Amazônia tem relevância no clima da América Latina e no mundo. Sua umidade forma "rios voadores" que levam chuvas ao continente.  Além disso, a floresta é um grande estoque de carbono da atmosfera colaborando para o não aquecimento do planeta. Isso sem contar sua biodiversidade e seus recursos hídricos. 

Kopenawa aprendeu com seus ancestrais a valorizá-la. “A floresta está viva. Só vai morrer se os brancos insistirem em destruí-la. Se conseguirem, os rios vão desaparecer debaixo da terra, o chão vai se desfazer, as árvores vão murchar e as pedras vão rachar no calor. A terra ressecada ficará vazia e silenciosa. Os espíritos xapiri (espíritos protetores Yanomamis), que descem das montanhas para brincar na floresta em seus espelhos, fugirão para muito longe. Seus pais, os xamãs, não poderão mais chamá-los e fazê-los dançar para nos proteger. Não serão capazes de espantar as fumaças de epidemia que nos devoram. Não conseguirão mais conter os seres maléficos, que transformarão a floresta num caos. Então morreremos, um atrás do outro, tanto os brancos quanto nós. Todos os xamãs vão acabar morrendo. Quando não houver mais nenhum deles vivo para sustentar o céu, ele vai desabar", profetiza.

São 40 anos de resistência. Apesar das ameaças de morte, Kopenawa tem os espíritos da floresta, de sua cultura, que o protegem e acompanham. Ao visitar outras cidades brasileiras, ele questiona: “Eles (os brancos) ficam agrupados numas poucas cidades espalhadas aqui e ali! Entre elas, no meio, é tudo vazio! Então por que querem tanto tomar nossa floresta?”. E acrescenta: “Suas terras não são realmente habitadas! Seus grandes homens resguardam-nas com avareza, para mantê-las vazias. Não querem ceder nem um pedaço delas a ninguém. Preferem mandar sua gente esfomeada comer nossa floresta!”.

A fome de metal é bem antiga.

“Entre 1503 e 1660, desembarcaram no porto de Sevilha 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata. A prata levada para a Espanha em pouco mais de um século e meio excedia três vezes o total das reservas européias. E essas cifras não incluem o contrabando.”, descreve Eduardo Galeano em seu livro Veias Abertas da América Latina. 

Para tirar a prata das montanhas de Potosí, o ouro de Minas Gerais, plantar cana de açúcar e outros produtos que valiam muito na Europa, os índios foram aniquilados, massacrados, escravizados. A população do México pré-colombiano estima-se que oscilava entre 25 e 30 milhões. ”Os índios das Américas somavam não menos que 70 milhões, ou talvez mais, quando os conquistadores estrangeiros apareceram no horizonte; um século e meio depois estavam reduzidos tão só a 3,5 milhões”, descreve Galeano. O genocídio indígena extinguiu 95% da população nativa. 

O contato com o homem branco ainda mata muitos indígenas. Kopenawa teve seu primeiro contato com pessoas urbanas quando era criança e sofreu a morte de muitos de sua tribo devido à epidemia dos brancos. Quando bem jovem foi trabalhar na Funai, porém, depois, voltou aos seus, pois se sentia completo na floresta e dentro de sua cultura. "É por tudo isso que quero viver na floresta, como fizeram meus antepassados antes de mim. Sou neto deles e quero seguir suas pegadas. Às vezes imito a língua dos brancos e até possuo algumas de suas mercadorias. Não tenho, porém, desejo algum de me tornar um deles. Em suas cidades não é possível conhecer as coisas do sonho. Nelas não conseguem ver as imagens dos espíritos da floresta e dos ancestrais animais. Seu olhar está preso no que os cerca: as mercadorias, a televisão e o dinheiro. Por isso eles nos ignoram e ficam tão pouco preocupados se morremos de suas fumaças de epidemia. Nós, contudo, temos pena dos brancos. Suas cidades são muito grandes e eles vivem desejando um monte de objetos bonitos, mas, quando ficam velhos ou enfraquecidos pela doença, de repente têm de abandonar todos eles, que logo se apagam de suas mentes. Só lhes resta então morrer sós e vazios. Mas eles nunca querem pensar nisso, como se não fossem deixar de existir eles também! Se pensassem, talvez não fossem tão ávidos das coisas de nossa terra e tão hostis para conosco."

Para compartilhar seu ponto de vista, Davi Kopenawa publicou o livro A Queda do Céu junto com o antropólogo Bruce Albert, primeiramente em francês, em 2010. Com sua voz fortalecida, divide a riqueza do pensamento dos povos da floresta. Por seu olhar, vemos a valorização da floresta, dos animais que ali habitam, da história de sua tribo, de seus xamas, de sua cultura. Valores tão escassos na sociedade do homem branco.

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