Tchernóbil ecológica


“As instituições para o caso de guerra nuclear prescrevem que adiante da ameaça de acidente nuclear ou ataque nuclear deve-se aplicar imediatamente uma profilaxia de iodo em toda a população. Em caso de ameaça! E o que é que nós tínhamos aqui? Tínhamos 3 mil microrroentgen por hora. Mas não se preocupavam com as pessoas, e sim com o poder. Era a pátria do poder, e não a pátria do povo. A prioridade do Estado era indiscutível. E o valor da vida humana se reduzia a zero. Havia modo de fazê-lo! Nós propusemos vários. Sem grande alarde, sem pânico. Simplesmente introduzir o preparado de iodo nos reservatórios de onde se extraía a água potável, acrescentá-lo ao leite. Bom, a água não teria o mesmo gosto, e o leite também não. Na cidade, achavam-se prontos setecentos quilos preparado. E ali ficaram, armazenados nos depósitos. Tinham mais medo da ira dos superiores que do átomo. Todos esperavam uma chamada telefônica, uma ordem. Temiam assumir pessoalmente as responsabilidades.” (Grifo meu)

Relato de Vassíli Boríssovith Nesterénko, ex-diretor do Instituto de Energia Nuclear da Academia de Ciências da Belarús, no livro “Vozes de Tchernóbil”, de Svetlana Aleksiévitch.

Este livro compila diversos relatos de pessoas afetadas pelo acidente nuclear ocorrido em Tchernóbil. Relatos tristes e muito humanos. Gerações dilaceradas que perderam o futuro. A morte era o assunto mais comum.

Esses relatos me fizeram pensar sobre a crise ambiental. Os governos fingem que não existe. Governantes fizeram o mesmo com Tchernóbil. Não acreditaram no acidente. Quando viram a verdade, não queriam assustar a população. Não evacuaram a população a uma área segura o mais rápido possível. Além de muitas outras ações que foram negligentes.

O livro mostra que no tempo de crise, quem tem poder decidiu com o pensamento individualista, visando aos seus objetivos pessoais.

Quando a crise ambiental se acirrar, se não desenvolvermos o pensamento comunitário, o poder vai nos levar a extinção.

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